2+2=4

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Sempre escuto a frase de que estudamos história para que possamos aprender com as experiências passadas e não repetir os erros. Mas a visão histórica em geral é vendida como uma série de acontecimentos encadeados que contribuem de maneira lógica para um desfecho inexorável. É como se o script só pudesse seguir por um caminho, pinçamos fatos que se encaixem na explicação que acreditamos e pronto, criamos uma relação de causa e consequência que nos satisfaz, muitas vezes retirando o papel do imponderável, o caráter aleatório dos eventos e a imprecisão da reação humana.

O exercício do olhar retrospectivo nos traz a vantagem de já conhecermos os desfechos factuais, nenhum historiador irá duvidar de que a Alemanha perdeu a Segunda Guerra Mundial, mas as causas da derrota podem ser alvo de discussões e de diferentes pontos de vista, é como olhar o resultado de um problema de matemática e tentar desenvolver os cálculos que o levaram até ele.

Mas e o olhar inverso? Será que conseguimos vislumbrar o resultado conhecendo todas as incógnitas que estão a nossa frente?

Vivemos um momento histórico conturbado, movimentos de extrema direita ganham espaço por todo mundo, há uma crise migratória na Europa, discursos abertamente xenofóbicos e racistas voltam a ganhar espaço, tudo parece fugir das previsões “lógicas”. Eleição de Trump nos EUA, de Bolsonaro no Brasil, Brexit… São todos acontecimentos que ainda não foram totalmente compreendidos e isso nos traz a pergunta, se não conseguimos explicar o que aconteceu como podemos acreditar que somos capazes de saber os próximos passos?

 Simplesmente não sabemos, estamos perdidos em meio a uma enxurrada de informações e temos dificuldade de filtrá-la e desvendar sua importância. Hoje vimos mais um sinal de tempos sombrios, o jornalista Glenn Greewald foi denunciado pelo Ministério Público Federal por ter, segundo o MPF, participado da invasão de celulares de autoridades brasileiras.

A denúncia contraria uma decisão do STF que impedia que o jornalista fosse investigado por praticar seu ofício e ignora o relatório da Polícia Federal que não havia encontrado indícios de envolvimento de Greewald no hackeamento.

Em suma, esse é mais um dos ataques sistemáticos que vêm ocorrendo no país a todos aqueles que não concordam com a escalada autoritária e com os rumos que o país vem tomando nos últimos anos.

O impeachment da Dilma só foi possível porque a balança da sociedade mudou, muita gente ignora o poder da burocracia institucional nas tomadas de decisão mas, nos últimos anos, ainda que sentado na cadeira presidencial, o poder do PT foi se esfacelando e os mecanismos de garantia da estabilidade institucional foram sendo dilapidados. A partir de um determinado momento, as instituições começaram um processo de boicote aberto do governo, boicote este endossado pela oposição e insuflado pela mídia.

Ministério público, Polícia Federal, Justiça, Congresso, todos tinham carta branca para fazer o necessário para impedir o PT, que foi alçado à posição de inimigo público número 1. Interpretações heterodoxas da constituição, vazamento de processos judiciais, conduções coercitivas, prisões prolongadas, denúncias pouco fundamentadas contra políticos, tudo era permitido.

Tiraram o PT, veio o Temer, agora o Bolsonaro, mas os métodos não cessaram, só foram se espalhando, agora o alvo não é apenas o PT, ou a esquerda, agora todos que se opõem à lógica Bolso-lavajatista são chamados de comunistas e viram alvo de ataques, parece aquele velho ditado: “crie corvos e eles te arrancarão os olhos”.

Olhando nossa história, lembramos que os políticos de direita que apoiaram o golpe de 1964 acreditando que iam se beneficiar foram cassados e os meios de comunicação que estamparam a vitória da democracia e classificaram o golpe como revolução, logo foram censurados e tiveram que participar do jogo sujo para sobreviverem, no entanto estes atores parecem fazer os mesmos movimentos agora.

Só há duas opções: ou eles sabem exatamente para o que estão contribuindo e, portanto, são uns canalhas, ou não enxergam dois palmos além dos seus olhos.

Pode ser que nenhuma das previsões de catástrofe se concretize, afinal os rumos da história são imprevisíveis, mas não podemos ignorar todos os sinais, estamos assistindo a uma escalada autoritária, a cada dia avançam mais sobre nossas garantias testando nossa capacidade de resistência, a denúncia do Glenn Greenwald é mais um dos muitos ataques à democracia que estão sendo perpetrados.

Voltando à pergunta acima “será que conseguimos vislumbrar o resultado conhecendo todas as incógnitas que estão a nossa frente?”, terminarei reescrevendo-a assim: será que é muito difícil ver o resultado de um governo que apoia milícias, defende o direito de matar, diz que os inimigos políticos não podem ser vistos como gente, abriga ministros com pensamento nazista e ataca todo mundo que o critica? Dois mais dois só pode ser quatro.

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