Iceberg

A cada dia este governo nos surpreende com uma nova história mais estranha que a ficção. Desta vez, o secretário de cultura foi exonerado por fazer menção a um discurso de Goebbels, a mente por detrás da propaganda nazista.

Sentado numa mesa, com voz empostada, foto do presidente na parede fazendo a vez de Fürher, trecho sonoro da ópera Lohengrin de Wagner, composição favorita de Hitler, o ex-secretário declara:

“a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada”.

No dia seguinte, ao ser questionado sobre o “copia e cola” feita com o texto nazista, ele se saiu dizendo que não sabia da origem do texto, que o mesmo havia sido “trazido por assessores”, mas que independente da origem “ a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo – é o que queremos ver na Arte nacional”.

Sem querer abusar muito dos lugares comuns, mas esse é a clássica emenda que sai pior que o soneto. Ele faz um mea culpa tímido e arrependido mas logo volta a defender o conteúdo, o que ele diz ser “perfeita”, é a ideologia nazista sobre arte.

Admitamos que ele realmente desconhecesse a origem da frase no momento em que a utilizou, então este seria um caso de match ideológico, se houvesse um tinder das ideologias, nosso mais novo ex-secretário veria a descrição da bio:

“Arte é só aquilo que definimos como arte.

Tudo que não seguir nosso pensamento será classificada como arte degenerada.

A arte deve enaltecer o que entendemos por nacionalismo.

Deve enaltecer nossos mitos fundacionais.

Deve estar vinculada às aspirações do nosso povo, ou não será nada”.

Ele olharia, analisaria a foto do carinha com braço direito em riste no perfil e daria um “like”.

Não é de se surpreender, quando analistas começaram a apontar as semelhanças entre o discurso bolsonarista e o discurso nazista muitos vieram dizer que era exagero ou que o termo nazista estava sendo banalizado.

Mas vamos olhar para o conteúdo da mensagem, o presidente acaba de falar que a “esquerda não merece ser tratada como pessoas normais”, a todo momento ele atribui todas as mazelas do país aos esquerdistas, os corruptos, sujos, desumanos, dignos de ódio, assim como o nazismo fazia com os judeus.

O lema “ Brasil acima de todos”, lembra o “Deutschland über alles” ( Alemanha acima de tudo), mesmo que aqui, isto fique só na retórica já que o lema real parece ser “ America first” ( América em primeiro).

Outra tática que parece ter sido utilizada ao pé da letra é a famosa frase “uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade”, atribuída a Goebbels. Não bastou se eleger com uma enxurrada de “Fake News”, o governo a cada dia se utiliza sistematicamente da mentira para impor sua versão: contesta dados científicos de queimadas na Amazônia, acusa o Greenpeace de ter derramado óleo no litoral brasileiro, óleo que antes havia sido creditado aos Venezuelanos, divulga, através dos filhos do presidente, fotos falsas de adversários, acusa o Leonardo DiCaprio de financiar queimadas… Tudo isso enquanto diz que “ a verdade vos libertará”.

E agora um secretário da cultura que vê na visão nazista da arte um rumo a ser seguido. Para os nazistas, a arte era apenas mais um meio de propaganda do regime e, assim sendo, devia exaltar todos os valores que eram caros ao governo. Tudo que fugisse desse padrão era tido como “arte degenerada” e era portanto repudiado e reprimido.

Esta visão mesquinha é apenas um traço do totalitarismo e da visão ditatorial do bolsonarismo. A tão citada guerra cultural travada por eles nada mais é do que uma tentativa de fazer com que o país, provavelmente mais diversificado do mundo, fique contido na visão reducionista que eles têm sobre o que é ser brasileiro.

Se para o nazismo a raça ariana devia ser preservada e salva da “contaminação” promovida pelos judeus e outras etnias. O bolsonarismo parece ter definido o “cidadão-de-bem” como o brasileiro de verdade que deve se ver livre dos esquerdopatas. O “cidadão-de-bem” parece ser o sujeito de classe média, preferencialmente homem, cristão, heterossexual, conservador de costumes, liberal na economia e que xingue o Lula e o PT nos grupos de whatsapp.

Tudo isso são sinais, hoje em dia, olhando em retrospectiva, não acreditamos como foi possível que o povo alemão tenha deixado Hitler ir tão longe, no começo ele era só um palhaço, um antistablishment, um não político, alguém que ia chegar e mudar tudo, que não tinha vergonha de falar o que pensava, que era simples, autêntico. No começo eles olhavam as declarações deles e viam apenas um pequeno pedaço de gelo, hoje em dia sabemos que era um iceberg.

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