O passado nos espera

“Guerra é paz”, ” Liberdade é escravidão”, “Ignorância é força”, esses são lemas do governo no livro “1984”, escrito por George Orwell em 1949. A história se passa em um universo distópico em que um partido único controla todos os cidadãos através do monitoramento sistemático e da repressão.


O governo é dividido em ministérios criados para manter o regime, o Ministério da Verdade é responsável pelas falsificações de documentos e registros históricos, o Ministério da Paz pela guerra e o Ministério do Amor é o que faz a repressão à população. 


Olhando o Brasil de 2019 parece que estamos sendo governados por um ajuntamento de figuras dignas de uma criação Orwelliana.


Temos um ministro das relações exteriores que se auto denomina antiglobalista, conclama Donald Trump como a salvação do mundo ocidental e reconhece o governo de um presidente auto-proclamado.


O ministro do Meio Ambiente foi condenado por improbidade administrativa sob a acusação de falsificar mapas para favorecer mineração em áreas de proteção ambiental.


O ministro da Educação destila, diariamente, sua falta de educação no Twitter, com frases cobertas de erros de português e ataques às universidades federais.

Em resposta a um dos maiores desatres ambientais ocorridos no litoral brasileiro, o secretário da pesca afirmou que não havia risco de contaminação dos cardumes pois peixe é um bicho inteligente e foge da mancha de óleo.


O Ministro da Justiça, que ganhou o emprego ao prender o principal adversário do seu chefe na corrida presidencial, ora faz as vezes de vigário, perdoando crimes de aliados que tenham se arrependido verdadeiramente, ora a de advogado da família do patrão impedindo as investigações de rachadinhas e assassinato.


Na Fundação Palmares, um negro que é contra movimento negro defende que a escravidão chegou a ser benéfica aos descendentes, visão que não deve ser compartilhada pela maioria negra e pobre que ainda vive os reflexos da escravidão e do racismo estrutural brasileiro.


Da Funarte partem ataques aos artistas, do Ministério de Direitos humanos sinais de que direitos humanos são só para homens direitos, seja lá o que isso signifique.


Tudo ocorrendo sob o comando de um presidente que foi deputado por 7 mandatos sem ser político; que é um cristão defensor da tortura e da pena de morte; que se elegeu fazendo uso extensivo de fakenews e vive repetindo que “a verdade vos libertará”; que lança o nome de seu filho para se tornar embaixador sem fazer nepotismo; que ataca a imprensa, as mulheres, os gays, a justiça, o legislativo, os aliados, a oposição, os movimentos sociais, o próprio partido, o presidente da França, a mulher do presidente da França, o Leonardo de DiCaprio… Depois de ter prometido unir o país.


No livro 1984, o Ministério da Verdade desenvolveu o duplipensar, que corresponde a um conceito segundo o qual é possível ao indivíduo conviver, ao mesmo tempo, com duas crenças diametralmente opostas e aceitar ambas. Só assim podemos entender esse governo desgovernado que atenta contra as garantias que o levaram ao poder, guiado pela ideologia de um ex-astrólogo, ex-islâmico e atual filósofo auto-diplomado e eterno charlatão enrustido.


Nos habituamos ao duplipensar, nos acostumamos a um governo que junta astronauta e terraplanistas, que quer uma polícia assassina, que abriga milicianos cristãos, que levou uma horda de ignorantes ao poder e a um presidente que bate continência para a bandeira de outro país enquanto repete “Brasil acima de tudo”. Nada mais nos choca, perdemos a capacidade de nos indignar e permanecemos na inércia enquanto somos levados rumo à Idade Média, com uma breve parada em 1984.

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